A ampliação da automação em uma empresa pode vir a eliminar o trabalho humano na mesma, conforme exemplos conhecidos há décadas. Mas na medida em que o trabalho permanece em outras unidades de produção, ocorre tão somente uma transferência entre empresas da mais-valia do conjunto. De qualquer forma, quando o trabalho vai além do tempo necessário ao sustento do trabalhador, as empresas se apropriam direta ou indiretamente do que foi produzido nesse tempo suplementar.
Porém, se todas as empresas forem completamente automatizadas o trabalho humano terá desaparecido. É uma hipótese absurda pois, se não houver salários, as mercadorias não poderão ter um valor nem serem vendidas, confirmando-se a impossibilidade de descarte da centralidade do trabalho na vida econômica e social. Na mesma direção, os necessários programas de renda mínima universal revelam seus limites, pois também dependem da criação de valor pelo trabalho.
Extinguir a força de trabalho – a única que gera valor – seria acabar também com os benefícios dos detentores do capital e com a própria acumulação. Assim, o capital procura reduzir ao mínimo não o número global de empregados mas, sim, o tempo de trabalho necessário à cobertura de seu custo. Incrementando a mais-valia relativa, obtida pelo aumento da produtividade com novos instrumentos e técnicas, a empresa se apodera do sobretrabalho.
No quadro do capitalismo contemporâneo tal objetivo é alcançado através das novas tecnologias de informação e comunicação, como inteligência artificial, robotização,plataformas digitais,etc., o que alguns configuram como sendo uma 4ª revolução industrial. A aplicação dos meios de home office/teletrabalho e delivery, impulsionada pela pandemia da covid-19 e envolvendo parte crescente da população economicamente ativa, favorece aumento de carga horária e libera o capital de custos com imóveis,equipamentos,veículos,segurança, manutenção,etc., em boa parte transferidos para o trabalhador, mais envolvido agora na confusão entre vida pessoal e profissional. Em conjunto com a transformação digital, foram ainda impostas novas práticas de informalização, flexibilização, terceirização, precarização e trabalho intermitente, bem como a eliminação de direitos trabalhistas e a disseminação de falsas categorias de “parceiros”, “colaboradores”ou “empreendedores”, tendo-se assim o panorama completo do aprofundamento da exploração do trabalho e da alienação.
As atividades produtivas cada vez mais informais ,mais precárias , em ambiente automatizado e diferentes locais favorecem o isolamento dos indivíduos, rompem vínculos de solidariedade e fomentam a ideologia do “fim do trabalho”. Criam-se então obstáculos novos às ações sindicais e à própria tomada de consciência de classe.
Além de promover a intensificação da exploração e da desigualdade, a crescente automação na atualidade leva a crises recorrentes, à concentração e à centralização do capital. Em outras condições, permitiria maiores rendimentos do trabalho, menores jornadas,menos desemprego, menos penosidade , mais criatividade e uma vida plena de sentido. Como vislumbrava Marx (“Grundrisse”), “… a redução do tempo de trabalho necessário não com vistas a criar sobretrabalho mas,de maneira geral, a redução ao mínimo do trabalho necessário da sociedade, ao qual corresponde então a formação artística,científica, etc., dos indivíduos graças ao tempo tornado livre para todos e aos meios agora disponíveis para todos.”