Carta de Berlim: a indigência e a idade mental dos Lava-Jato. 

Flávio Aguiar

Cara leitora, caro leitor: antes de ler o artigo, examinem bem as fotos exibidas antes dele.  

Segue-se a sequência das fotos. 
Agora vamos ao comentário. Quando eu era criança, mais ou menos dos meus sete ou oito anos para diante, a maioria dos meus heróis provinha do cinema: Buffalo Bill, Roy Rogers, atores como Gary Cooper, Burt Lancaster, John Wayne, Kirk Douglas, Victor Mature, Humphrey Bogart, Peter Cushing, etc. Fantasiado como eles, eu enfrentava bandidos e índios, tropas nazistas e japonesas, muçulmanos pérfidos e barões gananciosos, gângsters de Chicago e vampiros dos Cárpatos que invadiam Londres. Acho que como personagem do faroeste devo ter dado uma contribuição significativa para exterminar muitos apaches, cheyennes, lakotas e sioux, além dos bandoleiros mexicanos. E ao final, invariavelmente driblava todos eles e conquistava a mocinha imaginária, beijando-a como eu via acontecer na tela. Era só fechar os olhos. 
Havia heróis também que vinham da literatura, que eu já lia avidamente: Tarzan, Sherlock Holmes entre eles. E vinha gente dos quadrinhos, como de novo Roy Rogers, o Zorro, o Cavaleiro Negro, Jim das Selvas, o Pequeno Sheriff, Xuxá e Tigrinho… Super-heróis? Poucos:  lembro-me do Capitão Marvel e sua família contra o Dr. Silvana, o Capitão América. 
Havia os nacionais: Pedrinho, do Sítio do Pica-Pau Amarelo, o Anjo, Jerônimo, o Herói do Sertão; no cinema Anselmo Duarte e John Herbert. Minha infância foi povoada de heróis e de heroísmo. 
Depois eu fui crescendo. Continuei a ter heróis no meu panteão imaginário. Mudaram um pouco de caráter: Garibaldi se misturou entre eles. Cheguei a curtir O Vigilante Rodoviário e seu fiel cão Lobo na Televisão, além dos Patrulheiros Toddy. Mas eu não os imitava mais. Quando explodiu nos quadrinhos e no cinema a geração multiplicada dos super-heróis e super-heroínas eu já crescera um bocado. Meus preferidos eram o Homem Aranha e o atormentado Surfista Prateado, viajante cósmico que procurava salvar a Terra de seu mestre, Galactus, o devorador de mundos. Eu oscilava assim para o universo dos anti-heróis ou heróis paralelos. Para mim foi um sinal de maturidade. 
Por isto mesmo, recentemente fiquei algo espantado ao deparar com a foto acima, que registra o conjunto dos procuradores da Operação Lava-Jato. Nela não comparece seu líder, mentor, inspirador, instrutor, o ex-juiz Sérgio Moro, agora comprovadamente teleguiado, bem como os procuradores, por “forças ocultas”, embora cada vez menos “ocultas”, desde o submundo das cadeias de informação e formação que habitam os labirintos de Washington, Nova Iorque e outras cidades acima do Rio Bravo, nome mexicano do Rio Grande dos norte-americanos.  
Desde sempre desconfiei daquela turma, que boa coisa não iam fazer no nosso país. O que logo me despertou essa desconfiança foi o empuxo favorável que lhes deu nossa mídia mainstream, sempre tão ávida por heróis que a ajudassem a desarticular a ação das esquerdas, em particular a petista, nas últimas décadas. Foi assim com seu primeiro herói judiciário, o fatídico e hoje desaparecido Joaquim Barbosa e sua “monomania” em torno do “Mensalão”, sempre exposto embora nunca comprovado. 
Quando a Operação Lava-Jato investiu contra a Petrobras, que acabara de chegar ao fabuloso pre-sal, a ficha começou a cair. Não caiu sozinha. Um amigo a empurrou, advertindo que aí deveria ter o dedo, ou as escutas, de agências norte-americanas, como o FBI, a CIA, a National Security Agency e de organismos quejandos terceirizados. Ao longo do tempo, não deu outra: a advertência do meu amigo se comprovou profética. 
À medida que a e os Lava-Jato galgavam os degraus do sucesso, mais horrorizado eu ficava, até mesmo porque eu via como eram recebidos com salvas triunfais por grande parte da mídia mainstream mundial, nos Estados Unidos e na Europa, também interessada em desarticular o mundo das esquerdas latino-americanas, esse enxame de besouros que, como estes insetos aparentemente, não deveriam voar, mas avoavam, ameaçando o castelo dourado dos planos de austeridade que, depois da tempestade neo-liberal, iam terminando de desmantelar o Estado do Bem-Estar Social herdado dos tempos em que a social-democracia do Velho Continente era social-democrata. 
O pináculo daquela recepção triunfal  foi o comparecimento do procurador Deltan Dallagnol, o mesmo que posa à frente da tropa de procuradores formada naquela foto, para receber, em Berlim, o Prêmio Anti-Corrupção 2016 da Transparency International, hoje suspeita por seus critérios não parecerem tão criteriosos como deveriam ser, deixando de lado, por exemplo, os paraísos fiscais europeus ou as rotas que, em direção ao Caribe, passam pelo Velho Continente, onde o dinheiro muda de cor, de moeda, de destino e de proprietários nominais. 
Junto com este triunfo, o então juiz Moro pontificava em encontros universitários, inclusive aqui na Alemanha, ungido sacrossanto herói, um verdadeiro Siegfried anti-corrupção. Foi recebido com tapete vermelho pelo colendo Instituto de Sociologia Max Weber da vetusta Universidade de Heidelberg, tudo com as loas daquela nossa mídia mainstream, que acusava as esquerdas, em particular o PT, de fundar a “corrupção sistêmica” no nosso Brasil, senão a própria malfeitoria. E dá-lhe loas para a e os Lava-Jato, Moro incluído. 
Na época, protestamos junto ao Instituto Max Weber. Houve também protestos in loco, de gente que corajosamente compareceu à palestra do então considerado “chevalier sans peur, sans reproche et aussi sans tache”, antes dele ser declarado, como agora, no fundo, um “cavalier sans tête et sans cheval”, pelo contrário, conduzido numa carruagem dourada de prebendas e sinecuras devido aos favores prestados à política de neutralização e demonização das esquerdas, concedidas por empresa do seu Grande Irmão do Norte que nele, pelo visto, sempre mandou e desmandou: um fantoche perfeito. De quebra, ajudou a quebrar a economia brasileira e abriu caminho para o Anjo da Morte que ocupa o Palácio do Planalto, tudo com ajuda daquela meninada de Curitiba. 
Meninada? Pois é. Esta foi outra ficha que me caiu, e desta vez caiu sozinha. Aconteceu quando vi a foto aí acima da rapaziada. Minha descoberta dela se deu enquanto eu lia as primeiras mensagens por eles trocadas, nas reportagens da Vaza-Jato, no The Intercept. O que me espantou naqueles diálogos foi a sensação de impunidade que eles transmitiam. Impunidade e imunidade em todos os sentidos. Eles – e havia também elas – se achavam inatacáveis, invulneráveis e até, arrisco dizer, invisíveis e inaudíveis, logo neste século em que tudo é escutável, registrável, em que não é mais possível guardar segredos – pelo menos para quem usar um computador ou um celular de qualquer tipo. Tanto eles e elas se achavam, além de inimputáveis,  “indescobríveis”, que, quando se viram expostos, vieram com uma desculpa completamente esfarrapada e inverossímil. Eles, que usavam a plataforma russa Telegram (parte da rede vk.com), alegaram que as transcrições de suas conversas eram forjadas, porque “tinham deletado tudo de seus celulares”. Decididamente, a meninada não leu “No place to hide: Edward Snowden, the NSA, and the U. S. Surveillance State ”, de Glenn Greenwald, e muito menos “Permanent Record”, do próprio Snowden. Se leu, mesmo depois, não quis acreditar. Se acreditou, não quis dar o braço a torcer, pois o que Glennwald e Snowden contam reduz o argumento deles a pó de traque. Nesta altura, não só tudo o que eles falaram ainda está estocado na Telegram, como já deve estar catalogado em vários serviços secretos do mundo. 
Foi assim que comecei a imaginar que um dos fatores que os ajudaram a agir com a desfaçatez que agiram foi parecido com aquela brincadeira de criança muito pequena, quando ela tapa o rosto e acha que se escondeu. É verdade que eles não são crianças pequenas. Mas havia e há algo de criançolas nas suas atitudes. A começar, por exemplo, pela perversidade com que tratam e se referem a suas vítimas, em particular ao ex-presidente Lula e seus familiares, e à ex-presidenta Dilma. 
Em muitas de suas brincadeiras, as crianças podem se tornar muito cruéis, pois ainda não sabem medir nem controlar a força que são capazes de ter. Os Lava-Jatos, adultos, sabem a força que têm; mas se comprazem em atormentar e manifestar desprezo pelos “objetos” que examinam, acusam e pré-julgam. Moro não age de modo diferente, embora tenha um estilo algo distinto: é igualmente tosco nos seus pensamentos, mas é menos espalhafatoso, embora seja tão cruel quanto a rapaziada que monitorava, industriava. dirigia e liderava. 
Vejam bem: ele não está naquela foto. Para mim ela foi muito reveladora. Dallagnol acabou de entrar na casa dos quarenta anos; cresceu exatamente quando a febre dos super-heróis explodia no cinema e na televisão. Como sou bem mais velho do que esse bando de procuradores e seu chefe Moro (que está na casa dos 50), a primeira coisa que me veio à mente foi outra foto, aquela em preto-e-branco, d’Os Intocáveis, a série de televisão estreada em 1959 e que entrou pelos anos sessenta a dentro. A semelhança é muito grande, não só pelos trajes e pela atitude de machinhos machões, pois, se os “intocáveis” de Curitiba não portam um machado e armas na sua foto, eles se comportam como se as tivessem. Além disto, o filme “Os intocáveis” mais recente, com Kevin Kostner no papel de Eliot Ness, antes desempenhado por Robert Stack, faz a ponte entre as diferentes épocas. 
Mas fui adiante. O modelo narrativo que os burladores da justiça, sediados em Curitiba, quiseram impor para si mesmos, e para o mundo, remete ao universo dos super-heróis, dotados de super-poderes: vieram à tona as fotos (que lá estão, acima), dos X-Men e da Liga da Justiça, que certamente foram as que serviram de modelos próximos para a empáfia dos procuradores da Lava-Jato. De qualquer modo, isto me mostrou algo que transparece nas atitudes deste pessoal, e de muitos outros que compõem a atual arena conservadora brasileira: ao lado dos ensebados e sebosos leões-de-chácara do campo de concentração em que estão querendo transformar o Brasil, há aqueles que simplesmente não cresceram mental nem emocionalmente. Continuam a agir como adolescentes encantados pela auto-imagem arrogante e narcisista que construíram para si mesmos, e que os torna de fato invulneráveis – não aos olhares externos, e sim aos sentimentos humanos mais comezinhos, como a compaixão e a solidariedade para com terceiros. 
No seu mundo não há “terceiros” com forma humana, somente inimigos. E só reconhecem solidariede em relação à confraria espúria que criaram, com que tentaram até mesmo assaltar a grana das multas que ajudaram a provocar sobre a Petrobras, para com ela criarem uma fundação de caráter duvidoso. 
Embora ajam com desenvoltura e até esperteza, tornaram-se verdadeiros “mentecaptos”, na acepção profunda da palavra. Tiveram a mente capturada pela auto-imagem que forjaram para explicar suas atitudes arbitrárias, cruéis, violentas, colocando-os com a sensação de estarem acima do bem e do mal, e do comum dos mortais. São os seus próprios super-heróis, tudo podem, a si tudo consentem: amputaram de suas almas o largo e brumoso oceano dos “sentimentos do mundo”, fechando-se em seus casulos, onde, acreditam, são belas crisálidas desabrochando em borboletas. Quando, na verdade, se transformaram em horríveis vermes devoradores de carniça: sobretudo a própria. 
Como já narrei em outras ocasiões, a certa altura de meus heroísmos de fundo de quintal e de matinês cinematográficas, assisti o filme chamado “Sitting Bull”. Nele, depois de aniquilar o 7o. Regimento de Cavalaria, comandado pelo intempestivo, imprudente e arrogante Tenente-Coronel George Armstrong Custer, na batalha do Littlebighorn (1876), o grande chefe Lakota Touro Sentado recebe um jovem oficial da cavalaria norte-americana. Diz ele: “quando os brancos ganham uma batalha, eles chamam de vitória; quando nós ganhamos, eles chamam de massacre”. Nunca mais consegui torcer pela cavalaria americana. Acho que os “boys” de Curitiba nunca viram este filme. Se vissem, não gostariam
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